Continue a aportar
“Não precisa se estressar para poupar agora, deixa para quando você ganhar mais dinheiro”. Quem nunca pensou ou ouviu um conselho como esse? Infelizmente essa é uma ideia bastante comum, mas ela ignora o fato de que o ato de poupar é uma via de mão dupla: ele não serve apenas para construir o seu patrimônio, mas também para prevenir que o seu custo de vida suba indefinidamente e isso faz toda a diferença. Quer entender por quê? Então vem comigo porque hoje eu vou te mostrar na prática!
A matemática do custo de vida
No post passado conversamos sobre a importância de termos bem definidos os nossos objetivos antes de sequer pensar em sair escolhendo ativos por aí, lembra? Pois bem, possuir esses objetivos gera uma série de efeitos, um deles é passarmos a ter alguns números mágicos rondando nossa cabeça quando o assunto dinheiro aparece. O valor exato que falta para quitar aquela dívida, o orçamento que recebemos da agência de viagens, o alvo que estipulamos para a nossa reserva de emergência e, para os mais determinados, o maior número de todos: o patrimônio necessário para alcançar a independência financeira. Todos esses números mágicos, sem exceção, são afetados pelo famigerado custo de vida.
Vamos a ele? Custo de vida é o preço que você paga para viver com toda a pompa e toda a glória que escolheu (e quando não tem nem pompa nem glória também). É o valor somado de todas as suas despesas anuais incluindo aquelas esporádicas como as férias, a revisão do carro, o material escolar das crianças, as consultas médicas e os presentes de natal. Colocamos tudo numa cesta só e somamos. Para fins didáticos, podemos dividir o total por 12 para visualizar melhor o resultado, já que estamos mais acostumados a pensar nas finanças de forma mensal. É possível que mesmo aqueles mais habituados a registrar despesas se assustem um pouquinho com essa conta, pois não temos o costume de computar os sazonais no dia a dia. Ironicamente, justo por esse motivo, tendemos a ser muito menos humildes com eles.
O fato é que uma vez que tenhamos pelo menos uma ideia do nosso custo de vida anual, fica muito mais fácil ponderar sobre o que seria razoável dedicar a vários desses custos sazonais, quer ver? Faz sentido um orçamento familiar de 50 mil reais anuais dedicado a viagens se a escola de um dos filhos custar esse valor e eu estiver constantemente apertada para pagar? Faz sentido gastar 150 mil reais em um carro se minha reserva de emergência for menor que isso e ainda não estiver montada? Faz sentido dedicar todo o décimo terceiro às festas e presentes de fim de ano se depois não sobrar dinheiro em caixa para pagar o IPTU e o IPVA à vista com desconto e economizar? Repare que eu não trouxe respostas para essas perguntas, mas acho importante que você entenda que, se perguntando tudo isso ou não, você faz esse tipo de escolha o tempo todo. Casos como esses são apenas exemplos muito reais do que atendo regularmente em consultoria.
A beleza da gente se dispor a pensar em um planejamento financeiro coeso, intencional e estratégico é justamente poder refletir sobre as escolhas grandes para que as pequenas se adequem no meio do caminho e não o contrário, percebe? Quando não temos uma visão macro das nossas finanças, fica difícil estimar o espaço que o não calculado ocupa no nosso orçamento. O efeito disso, muitas vezes, é ver justamente as exceções (não tão exceções assim) desviarem o dinheiro que iria para o futuro diretamente para as faturas de cartão de crédito dos próximos meses.
Sendo assim, planejar seu custo de vida antecipadamente implicará, necessariamente, definir o quanto do seu salário poderá ser gasto diretamente no mesmo mês e quanto deverá ser poupado tanto para os sazonais (como as viagens) quanto para os objetivos maiores (como a compra de um imóvel ou a independência financeira). Não, a definição desses percentuais não é trivial e daria um post completo só para ela (sim, pretendo fazer!). Por hoje só peço que não se baseie em receitas prontas (alô 50, 30, 20) e que siga esse fio comigo rumo à parte mais importante dessa conversa: o efeito de toda essa organização na constância dos benditos aportes (seu investimento mensal)!
O bônus comportamental do aporte
Muito além de intensificar (e como!) o efeito dos juros compostos na conta, a resiliência do investidor em seguir aportando no longo prazo traz uma série de efeitos muito interessantes no comportamento. Vamos a eles:
O primeiro é justamente criar uma trava de segurança sobre o custo de vida! Ao definir os percentuais de poupança necessários para alcançar nossos objetivos, deixamos de gastar tudo no automático e passamos a visualizar nitidamente a serventia do salário para a construção de um futuro mais próspero e não apenas para o usufruto no presente. Essa postura reduz a danosa e conhecida inflação do estilo de vida (ou Lifestyle Inflation para a Faria Lima), que é basicamente o mau e velho hábito de subir dois degraus no padrão de vida ao mero sinal de um aumento na renda. Para garantir mesmo que esse controle aconteça, essa atitude deve ser renovada sempre que a receita pessoal ou familiar aumentar, idealmente mantendo o mesmo percentual de poupança ou até mesmo o aumentando quando for possível. Aumentos de renda são, inclusive, um dos momentos menos dolorosos para expandir as economias.
Em suma, delimitar um valor ou percentual fixo para as despesas do mês cria previsibilidade e permite ao investidor separar o valor dos aportes logo no início do mês ao invés de ficar esperando que algo sobre magicamente no final. Pode não parecer grande coisa, mas desenvolver o hábito de investir regularmente é, sem sombra de dúvida, um dos maiores diferenciais que alguém pode inserir na sua vida financeira. Considero ideal tratar os seus aportes como se fossem boletos de extrema importância (porque são!) cujos juros por atraso são os mais altos possíveis: sua liberdade e segurança!
Além do mais, o aporte disciplinado obriga o investidor a, no mínimo, observar os ciclos de mercado. É impossível investir em uma carteira diversificada todos os meses e não reparar quando os juros sobem ou descem, quando a bolsa fica mais ou menos volátil, quando a nossa moeda vale mais ou menos perante as demais e como todos esses fatores se comunicam e exercem influência entre si a cada novo movimento econômico, social, tecnológico e até mesmo climático! Estar atento às nossas finanças de longo prazo, em último grau, passa por entender que a nossa vida acontece em meio a um mundo de contexto geopolítico global e é diretamente influenciada por ele, desde a inflação nas prateleiras dos supermercados até as legislações trabalhistas e previdenciárias que tanto decidem sobre o nosso futuro.
Sendo assim, aportar com regularidade significa, essencialmente, manter uma rotina de cuidado com o próprio dinheiro. É criar checagens eventuais sobre o custo de vida, avaliar a proporção com que nos permitimos desfrutar de bens, serviços e experiências excepcionais e projetar os efeitos das escolhas do dia a dia na vida que pretendemos construir. Um professor muito querido sempre me dizia que “ensinar é repetir”. Penso que ele tem muita razão e que na escola da bolsa não seria diferente.
Demonstrando na prática
Pareceu difícil até aqui? Não se preocupe, irei desenhar uma comparação hipotética para explicar, na vida real, como um aporte adequado e regular impacta o seu futuro. Para entender como essa história toda funciona, vamos acompanhar a trajetória profissional de duas servidoras públicas de 30 anos em início de carreira, muito estudiosas, dedicadas e trabalhadoras que planejavam se aposentar antecipadamente por meio dos seus investimentos. Usaremos uma métrica mensal para facilitar o entendimento e trabalharemos apenas com rendimento real (ou seja, considere que os valores nominais seriam ajustados pela inflação, porém o poder de compra seria mantido conforme o planejado), ok? Vamos lá!
A Julia e a Beatriz se conheceram em seu primeiro cargo público, ambas ganhando oito mil reais por mês líquidos e estudando para passar em outros certames que oferecessem uma remuneração mais alta. Julia contou para Beatriz que havia conversado com um Consultor de Investimentos e que ele a havia informado que, se ela investisse três mil reais por mês, acumularia um milhão e meio de reais aos 55 anos e alcançaria seu objetivo. Julia estava determinada a seguir esse caminho e convidou a amiga para acompanha-la na rotina de investimentos. Beatriz topou, mas achou o valor do aporte muito alto e começou investindo apenas mil reais, se comprometendo a aumentar esse percentual quando tivesse um salário melhor. Então começaram assim:
Julia (30 anos)
Salário: R$8.000
Aporte: R$3.000
Custo de vida: R$5.000
Beatriz (30 anos)
Salário: R$8.000
Aporte: R$1.000
Custo de vida: R$7.000
Cinco anos depois da conversa, as amigas alcançaram uma grande conquista: tomaram posse em um novo cargo público para o qual haviam estudado juntas durante todos esses anos e agora contariam com uma nova remuneração de doze mil reais líquidos por mês, um excelente resultado! Julia já estava super habituada a investir e, empolgada com seus rendimentos, decidiu aumentar seu aporte para cinco mil reais por mês. Beatriz também cumpriu sua promessa e triplicou seu aporte para três mil reais por mês. Ficaram assim:
Julia (35 anos)
Salário: R$12.000
Aporte: R$5.000
Custo de vida: R$7.000
Beatriz (35 anos)
Salário: R$12.000
Aporte: R$3.000
Custo de vida: R$9.000
Julia sentia-se muito realizada em seu novo trabalho e decidiu parar de estudar para novos concursos, enquanto Beatriz ainda buscava aumentar sua renda e passou a se dedicar a concursos de mais alto nível, tendo alcançado, dez anos depois, seu terceiro cargo público, que lhe pagaria 18 mil reais líquidos por mês. Beatriz entendeu que esse era um momento decisivo nos seus planos de independência financeira e fez seu maior aumento de aporte até então, dobrou suas economias mensais de três para seis mil reais! E então ficaram assim:
Julia (45 anos)
Salário: R$12.000
Aporte: R$5.000
Custo de vida: R$7.000
Beatriz (45 anos)
Salário: R$18.000
Aporte: R$6.000
Custo de vida: R$12.000
Passados mais dez anos, as duas completaram 55 anos de idade, somando 25 anos de jornada desde aquela primeira conversa no início das carreiras e alcançando a idade em que haviam decidido viver da renda dos seus investimentos. Para calcularmos o resultado aproximado dessa história, consideramos a taxa de rentabilidade real de 4% ao ano que o Consultor havia projetado lá no início e que é um padrão de mercado. Vamos aos números?
Julia (55 anos)
Patrimônio acumulado: R$2.254.000
Custo de vida final: R$7.000
Meta ajustada: R$2.100.000
Resultado: Julia alcançou a Independência Financeira!
Beatriz (55 anos)
Patrimônio acumulado: R$1.676.000
Custo de vida final: R$12.000
Meta ajustada: R$3.600.000
Resultado: Bia não chegou nem à metade do patrimônio necessário para se aposentar.
Eu sei, por tudo que eu disse antes você já devia suspeitar que a Julia se sairia melhor nessa história, mas duvido que tenha imaginado tamanha distância! Beatriz ganhava muito mais dinheiro na reta final da carreira e passou os últimos dez anos aportando 20% a mais do que a amiga (seis mil contra cinco mil reais). Ainda assim, ela chegou aos 55 anos cobrindo menos da metade do caminho necessário para se aposentar, enquanto a Julia cruzou a linha de chegada com folga e um patrimônio que gera renda passiva suficiente para pagar 100% das suas contas.
Percebeu o duplo efeito que a constância dos aportes traz para a nossa vida? Beatriz teve menos tempo para aproveitar os juros compostos quando iniciou sua trajetória com um aporte menor e elevou o montante necessário para a sua independência financeira em mais de 70% com relação à sua amiga ao manter um custo de vida mais alto. Seguindo o mesmo ritmo, Beatriz teria de trabalhar 11 anos adicionais para alcançar a sua meta, mesmo recebendo um salário 50% maior que o da Julia. A independência financeira da Julia não foi alcançada por um golpe de sorte ou pela ação milagrosa de alguns poucos anos, mas no ritmo cadenciado dos seus esforços, salário atrás de salário. Esse é um ponto para o qual poucos investidores olham com a devida atenção, mas que agora você já sabe que não pode ignorar. É como dizia nossa amiga Dori: “para encontrar a solução, continue a nadar” aportar.
Babi é Planejadora Financeira Independente e Consultora de Investimentos, gosta de estudar o comportamento humano e acredita que a escrita é sua melhor forma de expressão.
