Na contramão mais uma vez
“Você é um fantasma que pilota um esqueleto coberto de carne, que habita em uma rocha que viaja a mais de um milhão de quilômetros por hora pelo espaço infinito. E você está preocupado com o que você vai postar?”
Seria cômico se não fosse trágico. O mesmo meio que me causava uma ansiedade levemente fora de controle também me lembrava que eu não precisava estar ali. Essa frase me veio em um vídeo curto multicolorido, cheio de estímulos, seguido por música eletrônica (gosto!) centrado na imagem de uma moça muito entusiasmada, no auge da juventude, repetindo cada uma das frases do DJ em sua frente. Eu nunca havia me inteirado da existência desse artista, mas confesso que suas palavras me deram um pequeno chacoalhão naquele momento (claro, com música as emoções sempre se chacoalham um pouquinho mais!).
O fato é que quando eu decidi dar as caras na internet (não gosto!) foi por uma razão especial: falar sobre dinheiro e as decisões que tomamos com ele, e esse é um assunto que me é muito caro. (Eu e meus trocadilhos. Pegaram?). Só que eu nunca quis fazer isso de maneira rasa ou imediatista, porque a verdade mesmo é que eu acho que é justamente esse imediatismo que nos rouba a melhor coisa que o dinheiro pode nos dar: qualidade de vida! A gente vai se deixando levar pela grama do vizinho sem saber que aquele verde pode ser corante ou que mesmo que não seja, não se sabe quantas gerações de jardineiros passaram por ali nem se o solo do outro foi mais adubado que o nosso. Spoiler: isso não é sobre jardins.
Agora, entre gramas e granas, é certo que não dá pra romantizar a contramão, pois só conhece a força da maré aquele que nada contra ela. Uma vez que seu conteúdo não agrade o algoritmo, as redes sociais não o entregarão para muitas pessoas. Uma vez que você se posicione firmemente contra um grupo, é provável que perca conexões. Uma vez que ouse dizer não no ambiente de trabalho, é possível que seja gentilmente realocado para o último lugar da fila de promoções. Perceberam onde quero chegar? Uma vez que você decida direcionar o seu dinheiro na contramão das aparências e do consumismo desenfreado, é razoável esperar que isso te cause desconforto em uma série de momentos: seja na dificuldade de tomar decisões bem pensadas ao invés de impulsivas, seja na mais absoluta inconveniência de sentir que deve explicações (mesmo que não dê) por se comportar de uma maneira diferente da média das pessoas que convivem com você.
Dito isso, perceber as provações da contramão é relativamente fácil, pois de uma forma ou de outra nos sentimos responsáveis quando passamos por elas. O que não é tão óbvio assim são os (muitos!) percalços de seguir a manada. Isso porque ninguém te conta que estourou o limite do cartão de crédito para postar aquela viagem de luxo, nem que está a pleno vapor em direção a um burnout para conseguir pagar a alfabetização bilingue do mais novo membro da família. O lado ruim da manada está quase sempre escondido, trancado a sete chaves, pronto para dizer que a culpa é integralmente sua por não ter seguido o status quo do jeito certo. “Vai lá, tenta de novo, compra esse produtinho aqui. Agora vai.”
Se você for uma pessoa observadora como eu, provavelmente já notou que não existe almoço grátis quando o assunto são escolhas. Quiçá também já tenha concluído que, por um caminho ou por outro, vai doer de qualquer jeito. Por outro lado, suponho que também já tenha percebido que, embora não seja possível se livrar do sofrimento, é absolutamente desejável reduzi-lo drasticamente em muitos momentos e pesar a gangorra para o lado que bem entendermos, de tal forma que toda e qualquer dificuldade seja apenas um reforço do porquê escolhemos estar aqui. A contramão, meus amigos, ao contrário do que possam dizer, dificilmente é habitada por quem não pensou muito bem nas suas próprias escolhas.
Ao tomar a decisão de migrar do irresistível feed infinito para um meio externo de leitura (vocês já viram teóricos apontando que vivemos uma sociedade pós literária?!), muito provavelmente reduzirei o meu alcance algumas léguas de distância. O lado bom? Não, bom não, bom é pouco. O lado excelente é que nas jardas de cá estaremos brindando nossas conquistas com muita honestidade, transparência, um tantão de propósito, estratégia e, por que não, muita alegria também.
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Babi é Planejadora Financeira Independente e Consultora de Investimentos, gosta de estudar o comportamento humano e acredita que a escrita é sua melhor forma de expressão.

Babi, obrigada pelo conteúdo! Me sinto como descreveu no texto, na contramão de todos que convivo. Obrigada por compartilhar suas ideias que são riquíssimas!
É muito bom ter sua companhia nessa jornada, Anna, obrigada pelo comentário!
Parabéns pelo conteúdo de muito conteúdo.
Fica na expectativa para os próximos.
Obrigada, Priscila, em breve postarei novamente, até lá!