Você quer investir para quê?
“Babi, o que acha de eu deixar um dinheiro nesse cofrinho do Pônei Bank?”
Perguntam assim os desavisados, prontos para ouvir um “acho bom “ou “acho ruim”, sem saber que 99% das respostas mais adequadas no mundo das finanças é depende. Determinada a ajudar, me sinto tentada a devolver esse tipo de pergunta com várias outras em sequência: quanto dinheiro? Qual percentual do seu patrimônio? Quais outros investimentos você já tem? O capital é seu ou da empresa? Vai usar o dinheiro em breve ou daqui mais de 10 anos? Você conhece seu custo de vida? A reserva está em dia? Geralmente me contenho e resumo a lista de indagações a uma única, mais certeira: quer guardar esse dinheiro para quê?
Aposto que você ficaria surpreso ao saber que, na maioria das vezes, o cidadão que perguntou primeiro não sabe me dizer. As variações de resposta mais comuns giram em torno de “sobrou e eu não sei o que fazer” ou “estou buscando uma rentabilidade melhor do que a poupança” e tem também o “ah, poupar é importante, né?”. Todas respostas semi-boas, afinal, partem de premissas verdadeiras: sobrar dinheiro no mês é ótimo, buscar rentabilidades melhores para ele também e sim, poupar é muito importante. O problema dessas respostas é que estão amplamente incompletas. Poupar sem saber exatamente o porquê quase sempre significa poupar menos do que o necessário, gastar de maneira impulsiva e escolher investimentos ruins, desalinhados com o que de fato você precisa.
A resposta correta para a pergunta “quer guardar esse dinheiro para quê?” deveria se parecer mais ou menos com alguma das alternativas abaixo:
- Estou construindo a minha reserva de emergência.
- Quero comprar um imóvel/carro daqui 5 anos.
- Vou gastar em uma viagem daqui alguns meses.
- Gostaria de fazer uma transição de carreira ou tirar um período sabático.
- Estou pensando na minha aposentadoria.
Acredite: minha opinião sobre os famigerados cofrinhos e tantos outros ativos seria diferente para cada uma dessas opções. E não é que eu queira complicar, muito pelo contrário, sou convicta de que quanto mais simples forem as nossas estratégias, mais chances de segui-las teremos. A questão é que os produtos de investimento muitas vezes não são intrinsecamente bons ou ruins, eles apenas não são feitos para todos os tipos de objetivos (tá, algumas opções são ruins para qualquer coisa, mas a gente não vai adentrar esse vespeiro hoje).
Ok, então como saber se o investimento que eu estou avaliando faz sentido para a meta que eu tenho? Aqui vão alguns conceitos básicos importantes para te ajudar a tirar os planos do papel:
- Com que velocidade você consegue transformar esse dinheiro em bens e serviços? Esse é o conceito de liquidez, muitas vezes esquecido por quem vê uma boa promessa de rendimento na tela do banco, mas não se lembra que ela só se realizará daqui muitos meses ou anos. A primeira camada de investimentos de qualquer pessoa deve estar sempre alocada com liquidez total para o mesmo dia ou no máximo para o dia seguinte (isso o mercado gosta de chamar de D+0 ou D+1). Então, se sua meta for montar uma reserva de emergência, por exemplo, esse ponto será crucial.
- Quando você pretende usufruir desse investimento? Se o seu objetivo for para o curto ou médio prazo, especialmente se for acontecer em menos de 5 anos, não pense em sair da renda fixa. Agora, se estivermos falando de longo prazo, especialmente mais de 10 anos, a renda variável tende a performar melhor e dispor de mais opções para alocar o seu patrimônio. Uma carteira de investimentos diversificada terá, naturalmente, ativos dessas duas classes.
- O retorno que estão te propondo parece absolutamente imperdível? Lembra da máxima “não existe almoço” grátis? Pois bem, aqui cai como uma luva! Desconfie de promessas muito acima da média e de operações tão complexas que você mesma não conseguiria explicar. Via de regra, entender que títulos privados são mais arriscados que títulos públicos e que empresas pequenas ou projetos e fundos novos têm mais incertezas do que os já testados por longos anos de mercado é um excelente balizador na hora de tomar uma decisão. Se um ativo mais arriscado não te oferece uma possibilidade de retorno igualmente maior, não faz sentido investir nele.
- O sobe e desce dos preços te assusta a ponto de te fazer vender tudo no desespero? Os altos e baixos da bolsa são vistos como risco por muitos, mas a verdade é que são apenas oscilações comuns e inevitáveis em qualquer ciclo econômico e não afetam apenas a renda variável, ativos de renda fixa também sofrem variações (se você pensa que não, pode ser apenas porque está visualizando um saldo teórico na telinha da corretora). Fugir da volatilidade é um caminho muito menos rentável do que aprender a conviver com ela. Caso isso seja muito desconfortável para você, comece com títulos de liquidez diária e vá ampliando a exposição aos prazos mais longos e à bolsa de valores aos poucos.
- Esse investimento específico precisa te gerar renda? Seja para aposentadoria, transição de carreira ou sabático, ter um “salário” regular pingando na conta pode ser um grande diferencial no quesito paz de espírito, algo capaz de trazer clareza e segurança para tomar decisões importantes ou viver com mais tranquilidade. Além disso, receber os retornos dos seus investimentos em uma bolada só pode deixar a organização mais complexa, dificultar o auto controle e possivelmente te colocar numa saia justa se precisar reinvestir justamente quando as opções estiverem mais caras. Pense nisso quando o investimento de hoje for pagar os seus boletos amanhã.
Em resumo, produtos financeiros são apenas ferramentas e o melhor pincel do mundo não serviria para furar uma parede. A mesma linha de raciocínio vale para o seu dinheiro. Antes de perguntar se o cofrinho X, a ação Y ou o fundo Z são bons negócios, defina quais são as suas expectativas para esses ativos e de qual forma eles precisariam trabalhar para você. Dar nome e prazo para os seus objetivos é o primeiro passo para investir estrategicamente.
A verdade mais profunda escondida em muitas das dúvidas do tipo “o que acha de investir aqui ou ali” é que o mais difícil muitas vezes não é escolher os ativos financeiros que teremos em carteira, mas sim definir o que queremos da nossa vida nos próximos anos. Essa conversa sem dúvida nenhuma é muito mais longa, mas hoje encerraremos por aqui.
Babi é Planejadora Financeira Independente e Consultora de Investimentos, gosta de estudar o comportamento humano e acredita que a escrita é sua melhor forma de expressão.

Verdade, Babi! Nossa vida muda, planos mudam e tudo deve ser pensado para que nossas decisões financeiras estejam alinhadas com tudo o que estamos vivendo e pretendemos viver. Ótimo texto, obrigada pela ótima leitura!
Adorei o conteúdo! Já querendo ver os próximos!
Beijos